Por Assessoria | 28/09/2026 – 11h14min
Os projetos-piloto podem cumprir para a eólica offshore brasileira uma função maior do que colocar as primeiras turbinas no mar. Eles permitem produzir dados, testar tecnologias, preparar portos e fornecedores, formar profissionais e entender, na prática, como a nova atividade convive com a pesca, as comunidades costeiras e os demais usos do oceano. Essa foi a principal conclusão do encontro que apresentou o relatório Fronteiras da Inovação: Energia Eólica Offshore no Japão e no Brasil, elaborado pela Ventos Nexus e pela JB Energy, realizado em São Paulo no dia 23 de setembro.
O estudo reúne 25 aprendizados da experiência japonesa em cinco temas: geração de conhecimento; instalação e operação; validação de estruturas flutuantes; engenharia e logística para a escala comercial; e legado dos projetos. Perguntas de representantes da OEP – Ocean Energy Pathway e do WWF levaram o debate também para aspectos sociais, ambientais e territoriais.
O Japão começou a desenvolver projetos offshore após o acidente nuclear de Fukushima, em 2011. No projeto demonstrativo instalado diante da província, foram testadas três turbinas eólicas em plataformas flutuantes de concepções diferentes e uma subestação elétrica flutuante. O empreendimento não avançou para uma etapa comercial, mas percorreu o ciclo de instalação, operação e descomissionamento e gerou conhecimento que hoje orienta novos projetos.
Para Rodolfo Gonçalves, CEO da JB Energy e pesquisador da Universidade de Tóquio, esse resultado muda a forma de avaliar um piloto. “Às vezes as pessoas pensam que o piloto vai atrasar. O piloto adianta: você aprende, erra e não precisa aprender de novo e errar novamente”, afirmou. Fukushima mostrou ainda que certificação, portos, embarcações, fornecedores, operação e descomissionamento devem ser considerados desde o início.
Depois de testar plataformas, o Japão percebeu que não havia preparado, no mesmo ritmo, a cadeia necessária para produzi-las em escala. A lição para o Brasil, segundo Gonçalves, é partir da capacidade industrial e portuária existente e desenhar soluções que possam ser reproduzidas no futuro.
Matheus Noronha, CEO da Ventos Nexus, destacou que o principal ativo produzido pelos pilotos são dados compartilháveis e replicáveis. Séries de instalação, operação e manutenção reduzem incertezas técnicas e comerciais. O relatório nasceu da organização de registros de campo e visitas a parques japoneses em diferentes etapas.
As perguntas feitas durante o encontro ampliaram o conceito de aprendizagem. Júlia Paletta, da OEP, questionou como o Japão conciliou a eólica offshore com uma atividade pesqueira organizada e politicamente influente. No modelo japonês apresentado no evento, o diálogo com comunidades pesqueiras e governos locais antecede os estudos da área. Os primeiros projetos também utilizaram zonas portuárias onde a pesca já era restrita, enquanto projetos flutuantes mais recentes foram deslocados para áreas mais afastadas.
Paletta também perguntou sobre a divisão de papéis entre Estado e empresas e sobre o aproveitamento da experiência brasileira em estruturas flutuantes. Depois, levou a discussão aos dados biológicos dos pilotos e citou um mapeamento participativo com comunidades no Sul, com mais de 2 mil polígonos de interesse. As intervenções mostraram que um piloto deve testar equipamentos, participação social, monitoramento ambiental e divulgação de dados.
Alexandre Grossi, do WWF, alertou para o risco de avaliar áreas apenas pelo recurso eólico. Segundo ele, o potencial técnico concentrado no Nordeste não encerra a análise: fatores socioeconômicos, tecnológicos e ambientais também dão relevância ao Sul e ao Sudeste. A seleção de áreas deve cruzar vento, conexão elétrica, conflitos de uso, sensibilidade ambiental e logística.
A discussão reuniu várias especialidades. Daniel Lamassa, da Ming Yang, tratou do porte crescente dos aerogeradores e das exigências de instalação. Luís Meca, da Hitachi Energy, explicou como distância da costa e potência alteram transmissão e subestações. Evandro Marzano, também da Hitachi Energy, participou do debate sobre Fukushima e subestações offshore. Edgard Malta, da Technomar, e o professor Lucas Carmo, da USP, contribuíram com experiências de visitas ao Japão e pesquisas sobre estruturas flutuantes e eletrificação offshore.
O Brasil não parte do zero. A indústria naval e de óleo e gás oferece conhecimento em engenharia oceânica, estruturas flutuantes, ancoragem, operações marítimas e manutenção. Os pilotos podem conectar essas competências às exigências da eólica offshore, identificar lacunas e produzir evidências para normas e procedimentos futuros.
É nesse ponto que o aprendizado japonês se liga ao Aura Sul Wind, projeto-piloto flutuante previsto para Rio Grande, no Rio Grande do Sul. O empreendimento pretende levar à prática, em condições brasileiras, a integração entre tecnologia, cadeia industrial, portos, certificação, monitoramento ambiental, produção de dados e diálogo com comunidades. Em vez de reproduzir uma solução estrangeira, o piloto deverá testar como a experiência acumulada no Japão pode ser adaptada às capacidades e às características do litoral brasileiro.
Para Gonçalves, o sucesso em cinco anos será ver “o projeto-piloto na água, funcionando, gerando dados, criando conhecimento e conversando com as comunidades locais, as comunidades pesqueiras e o socioambiental”. A geração de energia será parte do resultado, mas não seu único indicador. Na visão do executivo, o legado deverá incluir empregos, formação nas universidades, melhoria da qualidade de vida e uso combinado do mar. Assim, o Aura Sul Wind poderá converter as lições japonesas em conhecimento público para o Brasil e preparar, desde a base, decisões mais seguras para a futura escala comercial.


