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10 setembro 2026
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Como a FURG decide quando manter, adaptar ou suspender atividades diante de eventos extremos

Comitê reúne cerca de 30 profissionais de diferentes áreas para avaliar riscos, interpretar previsões e orientar decisões da Universidade diante de fenômenos meteorológicos severos

Quando uma portaria da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) classifica um evento meteorológico como de impacto baixo, médio, alto ou severo, a decisão é resultado de uma cadeia de análises que vai muito além da previsão do tempo. Informações meteorológicas e hidrológicas, condições de mobilidade, infraestrutura, energia, comunicação, saúde e características dos diferentes territórios onde a instituição está presente são avaliadas pelo Comitê de Avaliação e Prognóstico de Eventos Extremos, responsável por subsidiar a Reitoria na definição das medidas a serem adotadas.

 

A estrutura começou a ganhar forma em 2023, após uma sequência de ciclones que atingiu o Rio Grande do Sul e provocou danos, interrupções no fornecimento de energia e dificuldades de deslocamento, inclusive nos campi da Universidade. Naquele momento, a FURG identificou a necessidade de estabelecer um mecanismo permanente para acompanhar fenômenos extremos e avaliar seus possíveis efeitos sobre a comunidade acadêmica.

 

Em novembro daquele ano, foi aprovado o Programa Institucional de Avaliação, Prognóstico e Mitigação de Impactos de Eventos Extremos, por meio da Resolução Coepea nº 117/2023. O programa estabeleceu procedimentos para monitorar condições meteorológicas e hidrológicas, analisar prognósticos, classificar níveis de impacto e orientar respostas acadêmicas e administrativas.

 

Desde então, o modelo passou por ampliações. O Comitê, inicialmente concentrado principalmente em pesquisadores ligados à meteorologia, climatologia, oceanografia, geografia e áreas relacionadas, incorporou profissionais de outros setores à medida que a Universidade passou a considerar a dimensão humana, operacional e territorial dos eventos extremos.

 

Atualmente, segundo o coordenador do grupo, Felipe Kessler, aproximadamente 30 pessoas participam do Comitê. A composição envolve profissionais das áreas de saúde, psicologia, educação, comunicação, infraestrutura, meteorologia, previsão e simulação, engenharia e gestão institucional, além de representantes do Hospital Universitário, das pró-reitorias e dos diferentes campi da FURG.

 

“É um comitê grande, que tenta justamente abarcar, da maneira mais interdisciplinar possível, as decisões, as recomendações e o acompanhamento do cenário”, explicou Kessler.

 

Preservar vidas sem paralisar a Universidade

 

A atuação do Comitê parte de uma prioridade: preservar a vida. Ao mesmo tempo, a Universidade procura manter suas atividades sempre que as condições permitirem. A combinação entre esses dois objetivos é um dos principais motivos para a existência de diferentes níveis de resposta.

 

A FURG possui uma estrutura multicampi distribuída por quatro cidades, além de museus, centros associados, espaços de pesquisa e extensão, restaurantes universitários, casas de estudantes, laboratórios com organismos vivos e o Hospital Universitário. Por isso, uma eventual interrupção não pode ser tratada apenas como o cancelamento de aulas.

 

“O universo de atividades da Universidade exige um pensamento muito cuidadoso. Não se trata apenas de não ter aula. São restaurantes universitários, espaços como o Centro Integrado de Atenção à Criança e ao Adolescente (Caic), unidades de extensão e espaços de pesquisa que não podem simplesmente ser fechados sem um planejamento”, ressaltou o coordenador.

 

A análise também considera as pessoas que dependem desses serviços. Estudantes, técnicos, trabalhadores terceirizados e profissionais envolvidos em atividades essenciais podem enfrentar condições diferentes para chegar aos locais de trabalho ou estudo.

 

“O Comitê pensa no estudante, no técnico, no terceirizado e no serviço essencial. Cada território tem sua especificidade, e nós temos um grande quantitativo de estudantes e servidores que dependem de transporte público. Isso também precisa entrar na tomada de decisão”, completou Kessler.

 

Uma ocorrência que apresente impacto limitado no campus Carreiros, em Rio Grande, por exemplo, pode provocar dificuldades de transporte, alagamentos ou bloqueios em outras localidades onde a Universidade mantém estruturas. Por isso, a decisão precisa levar em conta as condições de cada território.

 

Quando o deslocamento não puder ser realizado com segurança, medidas institucionais podem ser adotadas para evitar prejuízos acadêmicos aos estudantes e trabalhadores afetados, incluindo recomposição de frequência e conteúdo quando necessário.

 

Quatro níveis para diferentes cenários

 

Uma das mudanças provocadas pelo programa foi abandonar uma lógica baseada apenas em duas alternativas: manter tudo funcionando ou suspender completamente as atividades.

 

O programa institucional estabeleceu quatro níveis de impacto (baixo, médio, alto e severo) definidos a partir de fatores como mobilidade, fornecimento de energia, comunicação, possíveis danos à infraestrutura e riscos à saúde e à vida.

 

A classificação permite respostas diferentes conforme a gravidade e a abrangência do fenômeno. Entre as possibilidades estão a manutenção das atividades, adoção de medidas especiais, realização exclusivamente remota e suspensão integral.

 

Na avaliação de Kessler, essa flexibilidade é necessária porque um fenômeno pode provocar impactos relevantes sem necessariamente tornar inviável o funcionamento de toda a Universidade.

 

“O caminho mais fácil seria cancelar as atividades e pronto, todo mundo fica em casa. Mas isso não contempla o contexto que nós vivemos. Estamos em uma região em que essas ocorrências não se resumem a um evento extremo por ano. Essa realidade faz parte do cotidiano do nosso território”, ponderou.

 

Previsão meteorológica é apenas uma parte da análise

 

O Comitê não produz sozinho as previsões meteorológicas que utiliza. Seu trabalho consiste em reunir diferentes fontes de informação e avaliar como elas se relacionam com a realidade da Universidade.

 

Entre os dados considerados estão recomendações das Defesas Civis, informações de institutos oficiais de meteorologia e análises produzidas por equipes especializadas da própria FURG, como o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX).

 

As portarias da Universidade também consideram informações provenientes do Comitê, do CIEX, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e das Defesas Civis municipais. “Assim que são emitidas as recomendações da Defesa Civil, quando chegam as previsões que monitoramos e quando conversamos com o CIEX sobre as recomendações necessárias, o Comitê reúne todos esses dados e analisa o melhor caminho dentro da premissa de precaução, preservação da vida e, sempre que possível, manutenção das atividades acadêmicas”, detalhou Kessler.

 

O CIEX surgiu a partir da experiência acumulada pela FURG durante os grandes eventos de 2024 e passou a produzir informações destinadas também a municípios e instituições estaduais. A estrutura ampliou a capacidade da Universidade de acompanhar cenários de risco e interpretar dados relacionados aos fenômenos extremos.

 

Decisões precisam acompanhar a velocidade do tempo

 

Uma previsão pode mudar em poucas horas. Por isso, o trabalho do Comitê não se limita a reuniões previamente marcadas. Em situações de risco, a velocidade entre a chegada das informações, a análise e a comunicação da decisão passa a ser um fator determinante.

 

“Em situações de evento extremo, tempo de resposta é essencial. Entre a chegada da previsão do dia ou do próximo dia, o debate e a tomada de decisão, é preciso agir o mais rápido possível”, afirmou Felipe.

 

O acompanhamento ocorre de maneira contínua, inclusive fora do horário convencional de expediente. “O Comitê não pode agir somente por meio de uma reunião protocolar em um determinado dia da semana. Trabalhamos de forma contínua. Às vezes, os comunicados chegam em um domingo à noite, por exemplo e, com isso, precisamos, enquanto grupo, operacionalizar e dimensionar essas informações para auxiliar a reitoria na sua tomada de decisão”, explicou.

 

A própria Universidade identificou que o tempo necessário para transformar informações em recomendações ainda poderia ser reduzido. “Nós já identificamos que nosso tempo de resposta estava muito lento para o que a situação exige e, portanto, estamos tomando providências para que a informação circule o mais rápido possível. Também estamos desenvolvendo protocolos de emergência para as unidades e territórios”, relatou Kessler.

 

Protocolos mudam depois de cada evento

 

O modelo adotado pela FURG não é tratado como um conjunto definitivo de regras. Após eventos significativos, o Comitê revisa os procedimentos para identificar o que funcionou, quais problemas apareceram e onde são necessárias mudanças.

 

Entre os protocolos em desenvolvimento estão procedimentos específicos para diferentes unidades e territórios, definição de serviços críticos, treinamentos, organização de demandas prioritárias, estratégias de resposta e medidas de evacuação ou esvaziamento de espaços.

 

A revisão também permite incorporar novas experiências à estrutura institucional. Cada evento produz informações sobre as vulnerabilidades da Universidade e sobre a eficiência das medidas adotadas.

 

Onde buscar a informação

 

A comunicação com a comunidade acadêmica é outro componente da estratégia. Durante períodos de instabilidade meteorológica, informações sobre aulas e funcionamento dos campi costumam circular rapidamente por grupos de mensagens e redes sociais.

 

Para o Comitê, porém, a referência deve ser a comunicação oficial da Universidade. “É preciso destacar que precisamos criar uma cultura de acompanhar o canal oficial da Universidade, seja pelo portal FURG.br ou pelo perfil da FURG no Instagram. É ali que está a fonte da informação, e não em um grupo de WhatsApp. Se as informações ainda não estiverem públicas, o comitê ainda está deliberando e uma decisão será emitida em breve”, explicou Kessler.

 

A orientação também procura evitar que previsões ainda em análise sejam transformadas em certezas antes de uma decisão institucional. A Universidade precisa considerar cenários probabilísticos e diferentes possibilidades de evolução do fenômeno.

 

“A decisão da instituição é fundamentada na ciência. Ela envolve vários pesquisadores e vários mecanismos. A comunidade precisa entender que essa decisão não é tomada de forma inocente”, destacou.

 

Quando o pior cenário não acontece

 

Uma das dificuldades da comunicação sobre eventos extremos está na interpretação das medidas preventivas. Uma previsão inicialmente preocupante pode perder intensidade e não produzir os danos esperados. Isso não significa, necessariamente, que a decisão de precaução tenha sido equivocada.

 

O Comitê trabalha com cenários e probabilidades. Da mesma forma que um fenômeno pode enfraquecer, outro inicialmente considerado menos grave pode ganhar força rapidamente. “Quando há um alerta e não acontece nada, que bom que não aconteceu nada. É uma cultura que precisa ser estabelecida”, resumiu Kessler.

 

A lógica também vale para orientações de interrupção imediata de atividades. Quando há risco elevado, a recomendação de deixar determinado espaço deve ser seguida independentemente de uma atividade estar próxima do fim.

 

Uma estrutura construída depois dos eventos de 2023

 

Mais de três anos após a criação da estrutura, o Comitê deixou de ser uma resposta emergencial a episódios específicos e passou a integrar o planejamento institucional da FURG.

 

A análise de eventos extremos atualmente reúne diferentes áreas do conhecimento e considera não apenas o comportamento atmosférico, mas também mobilidade, infraestrutura, saúde, comunicação, assistência estudantil, funcionamento de serviços essenciais e particularidades de cada território.

 

A decisão final sobre o funcionamento da Universidade cabe à Reitoria. As recomendações, porém, são construídas a partir das informações reunidas pelo Comitê e das contribuições de pesquisadores, órgãos oficiais e estruturas especializadas.

 

“Podemos ser falíveis, porque evento extremo é muito dinâmico e pode se transformar em algo mais tranquilo ou em algo muito pior do que o inicialmente imaginado. Agora, é importante destacar para a nossa comunidade que nós, enquanto grupo de especialistas e enquanto instituição, vamos sempre tomar a melhor decisão com os dados que temos disponíveis”, completou Kessler.

 

A proposta, portanto, não é eliminar a incerteza dos eventos meteorológicos, algo que a própria natureza desses fenômenos impede, mas criar mecanismos para que a FURG consiga identificar riscos, avaliar impactos e reagir com maior rapidez. A experiência acumulada desde 2023 transformou a maneira como a Universidade se prepara para situações extremas e colocou a prevenção como parte permanente de sua gestão.

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